Rabindranath Tagore

 

Verdades

 

Roubo do hoje a força

Fazendo nascer o amanhã.

Da janela acompanho com olhar

As nuvens do céu.

De novo a sombra sinistra

Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha

Por todos os lugares por onde ando.

E em todos os momentos

É a tua presença que espanta

As brumas do desconhecido.

Não faço perguntas.

Tenho medo das respostas que já sei.

Liberta do invólucro físico

Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.

Vivi meus três caminhos na terra.

Purgatório. Inferno. Céu.

Tudo de acordo com meus projetos,

Minhas atitudes,

Procurando não reincidir nos mesmos erros.

Agora - vago e espero

Entre ápodos e flagelos

O ressurgir da verdade

 

SE NÃO FALAS

 

 

Se não falas, vou encher o meu coração

Com o teu silêncio, e agüentá-lo.

Ficarei quieto, esperando, como a noite

Em sua vigília estrelada,

Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,

A escuridão se dissipará, e a tua voz

Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão

Em canções de cada ninho dos meus pássaros,

E as tuas melodias brotarão

Em flores por todos os recantos da minha floresta.

 

Gitanjali

(um dos poemas)

 

Deixa a cantilena, o cântico e a recitação de contas de rosário!

A quem veneras neste recanto solitário e escuro dum templo de portas fechadas?

Abre teus olhos e vê que teu Deus não está diante de ti!

Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro e onde o pedreiro está rachando pedras.

Ele está com eles no sol e na chuva, e sua roupa está coberta de poeira.

Remove teu manto sagrado e como Ele desça para o chão empoeirado!

Libertação? Onde se encontra esta libertação?

Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria os vínculos da criação;

Ele está vinculado a nós para sempre.

Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e o incenso!

Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas?

Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.

 

CANTAR ME ENLOUQUECE

 

Quando me ordenas cantar, parece que o meu coração vai arrebentar-se...

Pensei que poderia te pedir a grinalda de flores que levas no pescoço...

Essa que ficou sempre na profundidade do meu ser...

A minha libertação...

Daqui por diante eu me expressarei em sussurros...

Cantar me enlouquece...

 

Quando me ordenas cantar,

parece que o meu coração vai arrebentar-se

de orgulho. Então contemplo a tua face e as

lágrimas me vêm aos olhos.

Tudo o que é duro e dissonante em

minha vida se dissolve em única e doce

harmonia, e a minha adoração abre as

suas asas, como um pássaro alegre voando

sobre o mar.

Sei que tens prazer no meu canto.

Sei que posso chegar à tua presença apenas

como um cantor.

Com a ponta da asa imensamente

aberta do meu canto eu roço os teus pés,

que eu jamais poderia querer alcançar.

Embriagado pela alegria de cantar,

esqueço a mim mesmo e te chamo amigo,

tu que és o meu Senhor.

Pensei que poderia te pedir a

grinalda de flores que levas no pescoço,

mas não me atrevi. Fiquei esperando pela

manhã, quando tivesses ido embora, para

encontrar pedaços dela no leito. E fiquei na

madrugada feito mendiga, procurando

uma ou duas pétalas caídas.

Coitada de mim, o que foi que

encontrei? O que me restou do teu amor?

Nem flor, nem perfume, nem jarro de água

perfumada... Apenas a tua espada

poderosa, flamejante como chama e pesada

como raio na tempestade. A luz jovem da

manhã entra pela janela e se derrama em

teu leito. O pássaro da manhã começa a

cantar, e me pergunta: "Mulher, o que é

que encontraste?" Não, não foi uma flor,

nem perfume e nem jarro de água

perfumada. Encontrei apenas a tua espada

poderosa.

Sento-me e fico cismando, admirada

com essa tua dádiva. Não acho lugar onde

escondê-la. Tenho vergonha de usá-la, tão

frágil sou, e ela me fere quando eu a aperto

contra o peito. Mesmo assim, porém, eu

levarei no meu coração esse honroso fardo

de dor, que é a tua dádiva para mim.

Doravante nada mais temerei neste

mundo, e tu conquistarás a vitória em

todas as minhas lutas. Deste-me a morte

por companheira, e eu vou coroá-la com a

minha vida. A tua espada está comigo para

cortar as minhas amarras, e nada mais

temerei neste mundo.

Doravante eu abandono todos os

adornos fúteis. Senhor do meu coração,

não vou mais ficar esperando ou me

desesperando pelos cantos, e nunca mais

vou ser tímida ou caprichosa. Deste-me

como ornamento a tua espada. Não preciso

mais dos enfeites de boneca.

 

Essa que ficou sempre na

profundidade do meu ser, no crepúsculo de

vislumbres e percepções momentâneas; essa

que jamais retirou seus véus na luz da

manhã, essa irá ser a minha última

oferenda a ti, meu Deus, envolta na minha canção final.

As palavras a cortejam, mas não conseguiram vencê-la, e a persuasão inutilmente estendeu para ela os seus braços ansiosos.

Vaguei de país em país, conservando-a

no íntimo do meu coração, e ao redor

dela a minha vida ergueu-se e caiu, ao

mesmo tempo forte e frágil.

Embora habite sozinha e afastada, ela sempre reinou sobre todos os meus pensamentos e ações, sobre todos os meus sonos e sonhos.

Muitos bateram à minha porta,

perguntaram por ela, e foram-se embora,

sem esperança.

Ninguém no mundo conseguiu vê-la face a face, e ela continua em sua solidão,

à espera do teu reconhecimento.

A minha libertação, para mim, não está

na renúncia. Sinto o abraço da liberdade

em mil laços de prazer.

Daqui por diante eu me expressarei

em sussurros...

...Gastei muitas e muitas horas na luta

entre o bem e o mal. Mas agora o prazer do

meu companheiro de jogos nos dias vazios

é atrair o meu coração para o seu. E eu

não compreendo por que esse repentino

convite para não sei qual inútil

inconseqüência!

 

Cantar me enlouquece, e se eu me

desfizesse todo num vôo de canção, nada

me pesaria tanto...

 

Flor de Lótus

 

 

No dia em que a flor de lótus desabrochou

A minha mente vagava, e eu não a percebi.

Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.

Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.

Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro

De um perfume no vento sul.

Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.

Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.

Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim

Que ela era minha, e que essa perfeita doçura

Tinha desabrochado no fundo do meu coração.

Poema de Despedida

 

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs

Eu já devolvi as chaves da minha porta

E desisto de qualquer direito à minha casa.

Fomos vizinhos durante muito tempo

E recebi mais do que pude dar.

Agora vai raiando o dia

E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro

Apagou-se.

Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.

Não indaguem sobre o que levo comigo.

Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

 

 

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