Antonio Carlos Jobim

 

Luiza

Rua,

Espada nua

Boia no céu imensa e amarela

Tão redonda a lua

Como flutua

Vem navegando o azul do firmamento

E no silêncio lento

Um trovador, cheio de estrelas

Escuta agora a canção que eu fiz

Pra te esquecer Luiza

Eu sou apenas um pobre amador

Apaixonado

Um aprendiz do teu amor

Acorda amor

Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

Vem cá, Luiza

Me dá tua mão

O teu desejo é sempre o meu desejo

Vem, me exorciza

Dá-me tua boca

E a rosa louca

Vem me dar um beijo

E um raio de sol

Nos teus cabelos

Como um brilhante que partindo a luz

Explode em sete cores

Revelando então os sete mil amores

Que eu guardei somente pra te dar Luiza

Luiza

Luiza

 

Eu Sei que Vou Te Amar

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida, eu vou te amar

Em cada despedida, eu vou te amar

Desesperadamente

Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será

Prá te dizer que eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar

A cada ausência tua eu vou chorar

Mas cada volta tua há de apagar

O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer

A eterna desventura de viver

À espera de viver ao lado teu

Por toda a minha vida

Garota De Ipanema

Olha que coisa mais linda,

Mais cheia de graça.

É ela a menina que vem e que passa,

seu doce balanço a caminho do mar.

Moça do corpo dourado do sol de Ipanema,

O seu balançado é mais que um poema,

É a coisa mais linda que eu já vi passar.

Ah, por que estou tão sozinho?

Ah, por que tudo é tão triste?

Ah, a beleza que existe,

A beleza que não é só minha,

Que também passa sozinha.

Ah, se ela soubesse

Que, quando ela passa,

O mundo inteirinho se enche de graça

E fica mais lindo por causa do amor,

Por causa do amor, por causa do amor...

 

Águas De Março

 É pau, é pedra

É o fim do caminho

É um resto de toco

É um pouco sozinho

É um caco de vidro

É a vida, é o sol

É a noite, é a morte

É o laço, é o anzol

É peroba do campo

Nó da madeira

Caingá, candeia

É o matita-perê

É madeira de vento

Tombo da ribanceira

É o mistério profundo

É o queira não queira

É o vento ventando

É o fim da ladeira

É a viga, é o vão

Festa da cumeeira

É a chuva chovendo

É conversa, é ribeira das águas de março

É o fim da canseira,

É o pé, é o chão

É a mancha estradeira

Passarinho na mão

Pedra de atiradeira

Uma ave no céu

Uma ave no chão

É um regato, é uma fonte

É um pedaço de pão

É o fundo do poço

É o fim do caminho

No rosto, o desgosto

É um pouco sozinho

É o estrepe, é emprego

É uma ponta é um ponto

É um pingo pingando

É uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto

É uma prata brilhando

É a luz da manhã

É o tijolo chegando

É alinha, é o dia, é o fim da picada

É a garrafa de cana

Estilhaços na estrada

É o projeto da casa

É o corpo na cama

É o carro enguiçado

É a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte

É um sapo, é uma rã

É um resto de mato na luz da manhã

São as águas de março

Fechando o verão

É a promessa de vida do teu coração

É pau, é pedra

É o fim do caminho

É um resto de toco

É um pouco sozinha

É uma cobra, é um pau

É João, é José

É o espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março

Fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte

É um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março

Fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco

É um pouco sozinho

Andam Dizendo

Vim tanta areia andei

Da lua cheia eu sei

Uma saudade imensa

Vagando em verso eu vim

Vestido de cetim

Na mão direita rosas vou levar

Olha a lua mansa

A se derramar

Ao luar descansa

Meu caminhar

Meu olhar de festa se fez feliz

Lembrando a seresta que um dia eu fiz

Já me fiz a guerra

Por não saber

Que esta terra encerra

Meu bem querer

E jamais termina meu caminhar

Só o amor me ensina

Onde vou chegar

Rodei de roda andei

Dança da moda eu sei

Cansei de se sozinha

Verso encantado usei

Meu namorado é rei

Nas lendas do caminho

Onde andei

No passo da estrada

Só faço andar

Tenho o meu amado a me acompanhar

Vim de longe léguas

Cantando eu vim

Vou não faça tréguas

Sou mesmo assim

Contracanto:

Me leva amor

Amor

Me leva amor

Por onde for quero ser seu par

 

Retrato em Preto e Branco

Já conheço os passos dessa estrada

Sei que não vai dar em nada

Seus segredos sei de cor

Já conheço as pedras do caminho

E sei também que ali sozinho

Eu vou ficar tanto pior

O que é que eu posso contra o encanto

Desse amor que eu nego tanto

Evito tanto

E que no entanto

Volta sempre a enfeitiçar

Com seus mesmos tristes, velhos fatos

Que num álbum de retratos

Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo

Procurar o desconsolo

Que cansei de conhecer

Novos dias tristes, noites claras

Versos, cartas, minha cara

Ainda volto a lhe escrever

Pra lhe dizer que isso é pecado

Eu trago o peito tão marcado

De lembranças do passado

E você sabe a razão

Vou colecionar mais um soneto

Outro retrato em branco e preto

A maltratar meu coração

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